“Aquela mulher que via pela primeira vez tinha um olhar pasmado, que vai e vem ao mesmo ritmo. Uma criança que soubesse exprimir-se de uma forma mais clara diria: eis um olhar ignorante, um olhar que não percebe e não tenta(…), o seu olhar era ainda  uma coisa como que transportada à mão, um olhar sem força, sem velocidade.(…) havia naquele momento uma diferença ostensiva entre a forma do olhar do médico Theodor Busbeck, o seu pai, olhar que aparecia e desaparecia com rapidez e que marcava o espaço com uma fita métrica inteligente – e o olhar daquela que diziam ser sua mãe: um olhar sem velocidade. Theodor fora ensinado pelo pai, Thomas Busbeck, que a inteligência era um índice do movimento do olhar.(…) o mais breve encontro entre dois seres que não se conheçam bastará- se existir uma observação atenta do olhar do outro – para se captar a aptidão intelectual de cada um, mesmo que um e outro não troquem palavra. O que cada um diz não é suficiente: pode ser apenas boa memória.(…) se queres escolher um colaborador, fecha os ouvidos, e está atento aos olhos dele, à forma como eles se mexem: no fundo ao modo como eles se atiram às coisas, como vêem um objecto e o rodeiam, como entram nele e depois saem ou ficam. O trajecto dos olhos no mundo dá o trajecto da inteligência”.

Gonçalo M. Tavares pp195 in Jerusalém