Que
calor, que cheiro, que confusão, tanta gente, que barulho. Desembarco, entrego
o meu passaporte, com umas notas lá dentro, a um Sr. que nos aguarda no
aeroporto, e sigo para o hotel sem mais complicações. - Não se preocupe que
fazemos o seu passaporte chegar ao hotel....diz o dito senhor, e assim foi…
Pelo
percurso feito meio em alcatrão meio em terra batida, tenho o primeiro contacto
com a mãe África e, não parece animador, estradas cheias de miséria e barracas,
gente vestida de trapos e de pés descalços, mas ainda assim, gente
aparentemente feliz.
Cerca
de 20 minutos depois chegamos ao mítico Hotel Polana, onde somos recebidos pelo
porteiro trajando em estilo colonial com farda imaculada de onde se destacavam
os inúmeros pins, presos à jaqueta, e a simpatia e hospitalidade dos amigos,
com um sorriso sincero rasgado e um “sejam bem-vindos, estávamos à vossa
espera!”
Fomos
beber um galão na sala colonial do hotel e depressa partimos, tínhamos muito
que fazer. A cidade estava à nossa espera com uma bela chuvada, que em dois
dias, nos conseguiu consumir metade da bagagem...mas não foi motivo para nos
desanimarmos, e por isso saímos para a rua, para tomar contacto com as gentes e
com a terra. Acabámos por ir parar a um género de centro comercial, onde petiscamos
umas coisas e voltamos para o hotel. O tempo não estava para colaborar.
Na
hora de jantar acabamos por encontrar o Vidal, que nos tentou convencer a ir
comer ao “Casino” por todas as formas subtis possíveis e imaginárias, mas o
Miguel não percebeu a dica e optou por um dos restaurantes recomendado pelo Sr.
da “Europcar” que nos havia alugado o jipe para a aventura no Kruguer Park. Lá
fomos os três …
Na
manhã seguinte levantámo-nos para ir ao Mercado do Pau, um dos programas
imperdíveis da cidade, aí, adquirimos artesanato local nomeadamente castiçais
giríssimos e brincos e onde foi preciso toda a perícia de negociante do Miguel
para as compras. Aliás, bastante falta fez, uma vez que os “amigos”, assim nos
tratam, pedem sempre os olhos da cara por qualquer bugiganga, e claro como se
fosse a coisa mais natural do mundo. Foi no meio de uma destas transacções, que
acabei por adquirir os meus preciosos brincos supostamente de marfim. Se por um
lado o Mercado do Pau é divertido, olhar em redor nem por isso, deparamo-nos
com muita pobreza, sujidade poças de lama, porcaria e vistas degradantes onde
se podem observar as gentes locais a comer de recipientes tão sujos que em
Portugal não serviriam nem para caixote do lixo.
Ao
passear pela cidade sente-se um aperto no coração, ao vislumbrar vestígios do
que um dia deve ter sido uma cidade majestosa. Tudo nos lembra o colonialismo,
a dimensão das avenidas, as fachadas que insistem em não desabar, os imponentes
edifícios de traça portuguesa que sobreviveram aos anos de abandono, a
indescritível estação de comboios, de onde actualmente partem e chegam comboios
da África do Sul e do Zimbabué, e onde foi rodada uma cena do filme “Diamante
de Sangue”, os anúncios de antigos salões de festas da alta sociedade moçambicana,
os antigos cafés, que ainda servem Delta...fica um amargo de boca, quando
imaginamos o deslumbre que foi.
Houve
ainda tempo para um caranguejo e uns petiscos na famosa cervejaria “Cristal”
que me deixou encantada com o seu ambiente especial (não tenho outra palavra
para descrever) e uma ida ao “Casino”, que nos surpreendeu pelo seu ambiente
sofisticado, onde a ementa, o espaço e as pessoas em tudo contrastavam com a
realidade lá fora. Não tiramos o melhor partido do jantar no Casino, porque
tínhamos chegado do Kruguer, e só quem fez um safari sabe como elas não matam
mas moem, estávamos arrasados de cansaço!!!
De
regresso da África do Sul, que foi uma aventura e tanto e que contarei num
outro relato de viagem, houve ainda tempo para provar as famosas lillys do
Polana, que são nada mais na menos que os nossos tradicionais pregos.
O
que posso dizer é que aproveitamos África até ao último minuto!
Na
hora de partir custou um pouco, passamos tão bons momentos, não só em
Moçambique mas também na África do Sul…por isso não quisemos descansar no
último dia, isso ficaria para o avião, afinal a viagem era grande …Lá nos
despedimos de Maputo, onde no aeroporto, eu com os meus sapatos altos, naquele
calor húmido infernal, sem ar condicionado, sim, repito, SEM AR CONDICIONADO,
pensei muitas vezes em como é muito fácil perder a compostura e ter vontade de
atirar os sapatos para longe e sentar em cima da mala de viagem…
No
regresso, já dentro do avião apercebemo-nos que não tínhamos lugar em
executiva, para podemos descansar numa bela cadeira/cama durante as 10h que
dura o voo, ainda por cima durante a noite. Mas o problema maior foi quando
percebemos que não tínhamos lugar nem em executiva nem em lugar nenhum a não
ser no jump seat!!
Foi
a pior viagem de avião que fiz na minha vida. Nas primeiras horas ainda tivemos
direito aos bancos de descanso da tripulação, mas depois….que frio, que sono,
que cansaço, acordei várias vezes com a cabeça a tombar e eu a cair do banco
abaixo…mas foi um preço justo pela alegria que senti e pela riqueza que
alcancei por ter estado em África, a África dos meus sonhos…Estávamos em 2007,
tinha apenas 28 anos e já tinha conseguido realizar esse grande sonho!!
É
certamente um local que desejo voltar, não só pelas pessoas, pelo ambiente, mas
também por mais qualquer coisa que não sei identificar. Será por me parecer
familiar de tanto ouvir os relatos do meu pai que lá esteve em tempo de Guerra?
Por ouvir vezes sem conta falar do Polana, da Ilha Xefina, na Avenida Samora
Machel…quem sabe, quem sabe até, se um dia voltarei…
P.S.
Dizem que não se deve voltar a um lugar onde fomos muitos felizes…
