Serra nevada - Crónica de uma barraca anunciada



Andávamos doidos para ir à neve, sem bem que eu nunca me tinha lembrado de aprender a fazer ski, esse desporto queque, chique, do bem e aparentemente inato a qualquer ser de boas famílias. Assim o provam as edições da Hola, Hello e outras revistas de cultura geral.

E foi assim, depois de muito nos informarmos sobre o tema, marcamos as nossas férias na Serra Nevada.

Na véspera, fomos buscar o Mercedes novinho em folha para arrancarmos para a nossa viagem de sonho, com o nosso carro de sonho, e claro ideal para as montanhas, neve e desporto de aventura.

Mal chegamos ao destino, estava uma grande confusão e constatámos que tinha caído um nevão imenso.

Como amadores nas lides das neves, ao chegarmos, em vez de entrarmos para a garagem para estacionar o carro, resolvemos dar uma volta para ver se havia estacionamento. O que nós não sabíamos era que conduzir em Serra Nevada depois de um nevão, é um inferno!!

Começámos bem mal as nossas férias… Foi por milímetros que não batemos nos outros carros devido ao piso de patinagem, e logo com o Mercedes acabadinho de sair do stand…

Ainda mesmo antes de chegarmos ao hotel já o Miguel tinha escorregado e entalado um dedo na porta do carro, estava a sofrer com dores físicas no dedo, e psicológicas a pensar que o carro não ia chegar são e salvo ao estacionamento. Achamos que aquilo ia correr muito mal…

Lá conseguimos chegar ao quarto e tentámos perceber toda a beleza e encanto daquelas complicações …

No dia seguinte, deparámo-nos com a realidade do ski, material que pesa toneladas, o frio, e carregar com aquilo tudo até ao teleférico, ainda por cima sem experiência nenhuma. Foram escorregões atrás uns dos outros…por essa altura já eu estava a pensar porque diabo estava naquele sítio…ir trabalhar era muito mais divertido!!!

Entrar no teleférico é outra aventura, porque o equipamento está sempre em movimento, e nós temos que picar bilhete (o forfait que está dentro do bolço) e atirar-nos literalmente lá para dentro com as tralhas todas, skis, botas, bastões, luvas, mochilas...não admira que volta e meia aquilo pare no trajecto até ao topo, foi alguém que caiu. Depois há que repetir tudo de novo, mas para sair do teleférico….

Mal tentei entrar nas pistas, para supostamente começar a diversão, não consegui - levantava a perna como quem sobe um degrau, força na perna de trás e catrapum, caía para trás…finalmente houve uma alma caridosa que me disse que se quisesse entrar tinha que desapertar as botas…ainda estou para saber como é que o Miguel conseguiu a proeza de subir com elas apertadas…

Depois vieram a aulas particulares de ski, conseguir andar montado naquilo é muito fácil, mesmo muito fácil mas só depois de aprendermos!!!É como andar de bicicleta, pedala, pedala, dizem-nos os crescidos, e zás eis que caímos ao chão. No ski é a mesma coisa – não tenhas medo, encosta a canela à parte da frente da bota, põe e corpo para a frente e zás!!Estás no chão com um ski para cada lado!!

Foi duro. Eu e o Miguel olhávamos um para o outro a pensar, olha o que fizemos das nossas  férias…mas não dizíamos nada…

Houve uma altura em que comecei a desembaraçar-me e só me lembro de ver o Miguel a fazer equilibrismo em cima de um ski, cai não cai, aí ri-me a valer!!!Ele não!

No final do primeiro dia estávamos esgotados, foi comer e dormir! Nestas lides temos que acordar cedo, porque estas coisas custam dinheiro e há que aproveitar!!

No segundo dia, fizemos progressos, percebemos como transportar o equipamento, já conseguíamos ficar de pé em cima dos skis…apareceu um raio de luz ao fundo do túnel…

Também percebemos que tínhamos que massajar as pernas no final do dia para aliviar as dores, levantar o colchão etc., etc.

Depois foi sempre a melhorar, aprendemos a skiar, passeámos, petiscámos pelos restaurantes. O cansaço mantinha-se, no entanto já tínhamos descoberto a magia da neve e do ski!!!


A paisagem é deslumbrante, descer as pistas a skiar dá-nos uma sensação de liberdade…fiquei fã!!


O Miguel evolui muito depressa, desceu uma pista azul inteira e conseguiu regressar ao hotel sem apanhar teleférico para descer, passou um aperto, mas o mais importante é que conseguiu!!! Eu fiquei-me pelas pistas verdes.


Num dos últimos dias, consegui a minha melhor acrobacia neste desporto…estavas-mos a ter aulas com um instrutor muito alto, e eu vinha lançada a descer a pista, quando fui direita a ele, que aguardava por mim em baixo. Quando percebi que lhe ia bater juntei os skis, baixei-me e ele abriu as pernas. Passei em grande velocidade sem lhe tocar!!!hahahahahaha sou uma craque, ainda hoje isso é motivo de risada…


De regresso a Lisboa, pelo caminho, o Miguel sugeriu apanhar uma mega bola de neve e por na geladeira, para levar como prenda à minha sobrinha Leonor, que íamos visitar na nossa pequena escala no Algarve.

A Leonor nunca tinha visto neve, acho que foi uma das melhores prendas que lhe deram…pusemos-lhe um pouco de neve num alguidar para brincar e o resto numa caixa de sandes no congelador.

No dia seguinte, quando foi para a escola, pelo caminho, disse à minha tia que tinha neve na mala, mas a minha tia Fátima não associou… No final do dia, a professora disse à minha irmã que ela tinha os livros todos molhados. Tinha levado a caixa de neve na mochila para mostrar aos amigos… as crianças são maravilhosas, não consigo pensar nisto sem ter uma ataque de ternura pela Nocas….

Foi uma viagem maravilhosa, apesar das peripécias iniciais. Aprendemos a skiar, descobrimos a magia das férias na neve, pudemos desfrutar do ambiente que se vive nas pistas, onde há um grande companheirismo entre todos. Há sempre alguém que pára para ajudar quando caímos, ou quando precisamos que nos vão buscar um ski que com uma queda foi parar longe, alguém que na ajuda a montar no ski em plena rampa…

Para a próxima fica só a certeza que o ideal é ir às pistas, mas guardar também tempo para usufruir de passeios e descansar…

Esta foi a primeira grande viagem de sonho que eu e o Miguel fizemos juntos, foi em 2006, eu tinha 26 ou 27 anos e foi o início de um ciclo que nos levou já a quatro continentes, que nos fez crescer e ser ricos em experiências…

Aprendemos que muitas das nossas viagens começam com contratempos, mas acabam sempre da melhor maneira possível!! Não se costuma dizer que o importante não é como se começa mas sim como se acaba?...